Comissão do Parlamento Europeu aprova flexibilizar meta para carros a combustão em 2035
Proposta reduz corte de CO₂ de 100% para 87,5%, mas ainda depende do plenário e de negociação com os governos do bloco.
A Comissão de Meio Ambiente do Parlamento Europeu aprovou uma meta menos rígida de emissões para 2035. O texto abre espaço limitado para híbridos e carros a combustão, além de prever créditos por aço de menor impacto ambiental.

A Comissão de Meio Ambiente do Parlamento Europeu aprovou, na quarta-feira (4), uma proposta que abre espaço para a venda limitada de carros novos híbridos, a gasolina e a diesel após 2035. O texto reduz a exigência de corte das emissões médias de CO₂ dos fabricantes de 100% para 87,5%, em relação a 2021.
A votação terminou com 48 votos favoráveis, 30 contrários e duas abstenções. A flexibilização ainda não entrou em vigor: depende de votação no plenário do Parlamento e de negociações com os governos dos países-membros.
A expectativa é que o plenário vote sua posição em dezembro. Depois, será necessário negociar o texto definitivo com o Conselho da União Europeia, que representa os governos do bloco.
A legislação atual, aprovada em 2023, estabelece a eliminação total das emissões de CO₂ pelo escapamento dos carros 0 km vendidos na União Europeia a partir de 2035. Na prática, isso impediria a venda de modelos novos com motores a combustão.
A Comissão Europeia já havia proposto reduzir a exigência para 90%, com mecanismos de compensação das emissões restantes. A comissão parlamentar aprovou uma meta básica ainda menor, de 87,5%, acompanhada de créditos adicionais. As diferenças entre as propostas precisarão ser resolvidas na negociação final.
As metas são calculadas sobre a média dos veículos novos registrados por fabricante, e não sobre cada automóvel individualmente. Assim, uma marca poderá vender determinada quantidade de carros a combustão se compensar suas emissões com participação suficientemente elevada de elétricos e outros mecanismos admitidos pela regulamentação.
Isso não significa liberdade para manter à venda todos os modelos atuais. Entre as tecnologias beneficiadas estão os híbridos convencionais, os híbridos plug-in e os elétricos com extensor de autonomia. Até veículos 100% a combustão poderão ter espaço, conforme as condições da legislação definitiva.
Uma possibilidade envolve combustíveis sintéticos, os e-fuels, produzidos a partir de hidrogênio e CO₂ capturado. É o caso da gasolina sintética produzida pela Porsche no Chile.
Também estão em discussão biocombustíveis renováveis que cumpram os critérios ambientais europeus. A proposta parlamentar prevê tratamento favorável a veículos abastecidos exclusivamente com determinados combustíveis renováveis, mas as regras de certificação e aplicação ainda dependem da aprovação final.
Neutralidade de carbono e emissões pelo escapamento são conceitos diferentes. Motores abastecidos com combustível sintético ou biocombustível continuam liberando CO₂ na combustão. A redução do impacto climático depende da origem do carbono, da energia usada na produção e das emissões de toda a cadeia.
Motores a etanol, por exemplo, também emitem CO₂ pelo escape. Parte desse carbono foi anteriormente absorvida da atmosfera pela cana-de-açúcar durante seu crescimento, o que reduz o impacto climático do combustível. Seu ciclo de produção, porém, também gera emissões.
Outra medida permite compensar parte das emissões dos automóveis com créditos pelo uso de aço produzido na União Europeia com menor impacto ambiental. Esses créditos poderão equivaler a até 7,5 pontos percentuais, complementando a redução básica de 87,5% exigida a partir de 2035.
Com isso, parte da exigência poderá ser cumprida sem reduzir o CO₂ liberado pelo escapamento. O aço beneficiado é fabricado por processos menos poluentes, como fornos elétricos alimentados por fontes renováveis de energia, em vez dos tradicionais altos-fornos movidos a carvão.
O texto também prevê incentivos à produção de elétricos pequenos e eficientes na Europa. Pelo sistema de supercréditos, cada elétrico com até 4,20 m de comprimento poderá contar como 1,4 veículo no cálculo das emissões médias do fabricante. A intenção é estimular modelos menores e mais acessíveis.
A revisão ocorre após longa pressão dos fabricantes europeus e de governos como os da Alemanha e da Itália. Eles argumentam que a transição obrigatória para elétricos, no ritmo inicialmente previsto, poderia comprometer a competitividade da indústria.
Entre as dificuldades apontadas estão o avanço das marcas chinesas, os custos de produção e a expansão da infraestrutura de recarga. BMW e Mercedes-Benz defendem há anos a neutralidade tecnológica, com diferentes soluções de propulsão contribuindo para reduzir emissões.
O setor também sustenta que híbridos e combustíveis renováveis podem diminuir o consumo de combustíveis fósseis sem exigir uma substituição tão rápida dos motores a combustão.
A flexibilização divide a indústria. Fabricantes concentrados em elétricos, como Volvo e Polestar, e organizações ambientais temem que a mudança prolongue a dependência dos combustíveis fósseis e desestimule investimentos em eletrificação. Já a associação europeia de fabricantes ACEA considera as concessões aprovadas insuficientes para enfrentar as dificuldades do setor.
Fonte: Motor1 Brasil


